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quarta-feira, 27 de julho de 2011

Em Nome de D’us: INTOLERÂNCIA


Por Erasmus Morus

Nossa sociedade se orgulha de ter como uma de suas notas fundamentais a globalidade e o pluralismo. Vivemos em uma sociedade onde valem diversas modas, diversas estéticas, diversas linguagens, a opinião à verdade. Tudo isso desde que não fira o pano de fundo da lógica “pluralista” ocidental: a hegemonia do rico, branco, europeu, cristão, bem sucedido.

Não se pode negar o fato do pluralismo no qual estamos imersos. É fato inegável. Todavia, na contramão daquilo que nos salta aos olhos vê-se o crescimento de atitudes extremistas pro-hegemônicas. Vemos agressão a homossexuais por parte do poder constituído (haja vista o deplorável deputado Jair Bolsonaro) e por camadas populares, agressão a judeus, a mulçumanos, a cristãos, a pessoas com deficiência, mulheres, negros. O diferente coloca em xeque uma identidade que não se autoconhece.

No que tange à religião judaico-cristã-mulçumana, a pretensa justificativa para a naturalização de atos violentos está na raiz da sua autocompreensão: dentre TODOS os POVOS, DEUS ESCOLHEU apenas UM: seja o povo judeu, seja o povo (sic) cristão, seja os árabes como único depositário da fidelidade amorosa de um Deus que criou todas as coisas. Será qual povo, afinal que Deus escolheu? Estranho egoísmo humano: achar que o Criador ama apenas a pequeniníssima parte de uma grande beleza criada.

O fato ocorrido na Noruega, país de primeiro mundo, serve para nós, afroameríndios,como triste exemplo de como não podemos ser. Em nome de Deus, alguém mata seus compatriotas simplesmente por serem menos intolerantes com migrantes que saem da periferia do mundo em busca de um lugar ao sol nos países frios. Justifica a sua ação na religião, na política. Em nome de D’us, criador de todas as coisas, somos intolerantes para com todas as outras nações. Aprisionados em nossas pequenas concepções do Grande Mistério, pensamos tê-lo abarcado todo e negligenciamos o fundamental: o amor.

A nossa compreensão de que somos escolhidos por Deus não dá a nós, judeus, cristãos ou mulçumanos nenhum privilégio. Pelo contrário, nos dá a missão de agir como quem experimentou um amor fundamental e fundante: D’us criador de todas as coisas.


terça-feira, 24 de maio de 2011

As violências nossas de cada dia


Um estudante entra armado na escola em que estudara. Atira para todos os lados simplesmente para matar. Ficamos atônitos. Onde vai parar esse mundo? Esta questão fica a martelar nossa cabeça de pessoas de bem.

Um grupo de terroristas joga aviões contra prédios em um país. Para garantir a paz, esse país inicia duas guerras e caça o cabeça da organização terrorista até dar a ele o que ele deu às pessoas que estavam nos prédios e nos aviões.

Duas moças entram na casa de uma idosa pobre para roubá-la e como esta não tinha dinheiro é brutalmente espancada.

Estamos nos acostumando com este tipo de notícia. Temos noticiários impressos e televisivos especializados em divulgar a violência. O problema é que, no nosso modo de entender, pessoas de bem que somos, somente estes casos extremados são considerados violência. Se, todavia, olharmos com um pouco mais de autocrítica nossas relações, percebemos que reproduzimos a todo momento as estruturas de poder promotoras da violência: não conseguimos lidar com o diferente e tentamos eliminá-lo do nosso meio. Com isso, produzimos nossos marginais que, também de forma violenta, questionam a sociedade que os produziu.

Entramos em um circulo vicioso cego. Violência gerando violência, tudo isso sendo naturalizado, normalizado sem que, muitas vezes, a realidade humana se dê conta disso. A estrutura violenta tornou-se para nossa sociedade o lugar comum, a ponto de chamarmos nossas cidades de selvas de pedra.

Um outro caminho, contudo, é possível: posicionar-se como praticante ou não da violência depende somente e tão somente da liberdade humana. Isto, concretamente, se traduz na construção de relações humanas novas, capazes de reconhecer que o grande dever de cada sujeito é garantir o pleno cumprimento dos direitos do outro, quando percebermos que a violação do direito humano de um é violação dos direitos da humanidade inteira, que nós produzimos nossos Osamas, nossos Wellingtons.

Aqui é construirmos um “livrai-nos do nosso mal, das violências nossas de cada dia”, porque entre nós não deve ser assim.

quarta-feira, 19 de janeiro de 2011

Doxa econômica: sobre o capitalismo e a tragédia

Kelly Cristina - aluguel imóveis teresópolis - Região Serrana

Por Erasmus Morus

Como bem diz o título desta pensata, vou emitir uma doxa, uma opinião acerca do modelo econômico capitalista e sua relação com a tragédia das famílias da região serrana do Rio de Janeiro. Isto porque careço de conhecimentos técnicos e teóricos que possibilitariam um texto mais objetivo.

O modelo capitalista neoliberal no qual vivemos se baseia no acúmulo de capital e na autogestão do mercado. Essa autogestão é o que mantém o equilíbrio do mesmo, sendo a intervenção estatal uma aberração.

A manutenção do sistema requer a produção de uma sociedade de consumidores. Quanto mais os bens são consumidos, há maior circulação/acúmulo de capital nas mãos de poucos que detem o sistema de produção de bens. Entra aí a necessidade de se fetichizar os produtos da indústria para que sejam capazes de aumentar cada vez mais as vendas, o que aumenta a circulação/acúmulo de capital, que gera desenvolvimento econômico (acúmulo de capital). Parece-me, como bom desconhecedor de “economês” que esta é a lógica que perpassa o atual sistema.

Com as tragédias que assolam alguns estados da federação brasileira percebe-se a cruel imoralidade do sistema econômico que nutrimos. Nos lugares atingidos falta de tudo um pouco: da habitação à alimentação. Com a falta de bens e a absoluta necessidade de consumo, visto que para muitos não sobrou nada, o sistema aumenta preços em vista do acúmulo do capital. O sistema, que somos nós, que nós escolhemos e que nós nutrimos, é incapaz de compadecer-se para garantir a um par o direito de alimentação, saúde e moradia digna.

Alguém pode objetar: mas, o sistema não tem que se compadecer. Certamente, se concordamos com a lógica acima descrita. Porém somente conseguimos sustentar essa lógica quando a tragédia não nos atinge de maneira próxima.

Nosso atual modelo cresce às custas das tragédias de tantos humanos que nada tem ou que tudo perdem. Onde chegaremos?

(Assim é comentada a foto desta postagem no site G1.com.br: "A solução provisória da família de Kelly Cristina foi reunir 12 pessoas da família em 02 quartos)

quinta-feira, 13 de janeiro de 2011

Sobre as chuvas e a Criação



por Erasmus Morus

A Campanha da Fraternidade de 2011 será, talvez, a que mais nos falará nos últimos anos. Fraternidade e a Vida no Planeta fala da maneira com que nós lidamos com a nossa casa comum, nosso planeta.

Há controvérsias, entre os cientistas, sobre o efeito de nosso processo de industrialização sobre o clima de nossa casa. Há quem sustente que o processo de aquecimento global é natural. Há, todavia, os cientistas que sustentam que o dito processo desencadeia mudanças drásticas no clima. De mãos dadas com o processo de industrialização há a ideologia capitalista-consumista que nutre as industrias e se nutre do sonho de vida feliz do humano.

O que será que isto tem haver com as chuvas deste início de ano?

TODOS SOMOS RESPONSÁVEIS PELAS MORTES OCORRIDAS E PELOS DESABRIGADOS. Isto não é frase de efeito. Cada um de nós, com nossas atitudes irresponsáveis na relação com o planeta, com o consumo exagerado e desnecessário, contribui para a morte do e no planeta.

É uma dura realidade que coloca em xeque nossa maneira de existir, de nos relacionar com o planeta. Nunca nos perguntamos sobre a quantidade de recursos do planeta que cada um de nós consome. Nunca paramos para pensar que as atitudes que temos estão relacionadas com um todo dentro do qual estamos inseridos, o planeta. Até que esta realidade nos atinja de maneira direta, nós as ignoramos e levamos a vida como se fôssemos os únicos habitantes do planeta.

A sabedoria judaico-cristã compreende que a terra foi criada por Deus e dada à humanidade. Anterior ao mandamento de dominar sobre a terra, algo que nos poderia levar à concepção de ser senhores da terra, absolutos, há o mandamento de frutificar, multiplicar e encher a terra (Gn 2,28). Antes da dominação há que se fazer com que a terra produza frutos, que a vida se multiplique em um modelo de terra-paraíso, onde há abundância de vida para tudo e para todos. Uma interpretação errônea da sociedade ocidental, marcadamente judaico-cristã coloca o humano como um dominador voraz, insaciável, que não cuida da vida que precisa ser frutificada, multiplicada.

Nosso modelo atual faz de nós uma mistura de Caim e Abel. Somos fratricidas com nossas atitudes de extrema exploração-consumo do que a terra generosamente nos proporciona. Ora somos assassinos, ora somos vítimas. Assassinos-vítimas que somos, somos inteiramente responsáveis.

Que a Campanha da Fraternidade extrapole os templos e os tempos, que ela nos ajude a refletir nossas atitudes geofratricidas, e, à partir de novas atitudes, construir um outro mundo possível.

segunda-feira, 3 de janeiro de 2011

Sobre 1964 e 2011: História, política Direitos Humanos


Procuro re-visitar a história a partir de meu olhar de filósofo e de teólogo. Aconteceu hoje, o3 de janeiro de 2011 a transmissão de cargos de diversos ministérios do novo governo, da primeira mulher. Conquista simbólico-social à parte, fato inegável, diga-se de passagem, comporta também diversos vícios da política contemporânea, quando partidos não tem mais ideologia que os sustente, buscam por cargos que lhes garanta projeção nacional e recursos para as próximas campanhas. Sob um mesmo teto convive direita, centro, esquerda, centroesquerdadireita...

Na transmissão de cargo, o novo ministro chefe do Gabinete de Segurança Institucional, General José Elito Carvalho Siqueira defende a não apuração das violações de Direitos Humanos cometidas pelo Estado Brasileiro durante o regime militar. Sob o argumento (falacioso) de que é preciso olhar para frente, que a ditadura é um fato histórico passado e que o Brasil é um país grandioso que deve olhar para frente e não para trás, se posiciona contrariamente à criação de um grupo para apurar se houve ou não violação.

Já a nova ministra da Secretaria Especial para os Direitos Humanos, Maria do Rosário, muito timidamente defende que é hora de prestar contas, se assim o Estado o determinar.

Claro que, como humanista, penso que o Estado deve sim prestar conta à sociedade que o constitui dos atos praticados durante o regime militar. Retomo aqui o argumento de Irineu de Lião, em sua obra Adversus Haeresis, de que somente é redimido o que é assumido. A humanidade somente foi redimida porque Deus se fez homem. Analogamente podemos afirmar que somente seremos bem resolvidos com nossa história se o Estado que nossa sociedade constitui pelo sufrágio universal, assumir seus atos e, de alguma forma reparar à sociedade e aos indivíduos concretos que tiveram seus direitos violados.

Com a sustentação da posição atual, que finge não ter existido violações de Direitos Humanos fundamentais, tanto por parte do Estado quanto por parte das oposições, ferimos os tratados internacionais dos quais somos signatários, pois além de negar o direito fundamental à vida negamos também aos nossos mortos o direito à memória. Mais do que tratados violamos a sacralidade da vida de outrem em nome de uma política de boa vizinhança, irresponsável, antiética e imoral: fingir que nada existiu.

Como diz a canção de Renato Russo: “Nos querem todos iguais. Assim é bem mais fácil nos controlar e mentir, mentir, mentir e matar, matar, matar, o que eu tenho de melhor. É hora de quem ainda não está cego gritar. Nossos direitos estão sendo violados. Nossa humanidade é violada em seu direito à vida e à memória quando nossos desaparecidos políticos continuam desaparecidos e fica tudo por isso mesmo. As instituições que gozam de prestígio e mobilização nacional deveriam propor um projeto de lei de iniciativa popular para a criação de tal comissão.

Que o sangue de nossos mortos e desaparecidos políticos gritem aos céus por justiça e que Deus escute o clamor de seu povo.

Para contextualizar acessem: http://g1.globo.com/politica/noticia/2011/01/temos-que-pensar-para-frente-diz-novo-ministro-do-gsi.html

domingo, 31 de outubro de 2010

Vence uma mulher...


por Erasmus Morus


Acontece algo que, sem dúvida, entra para a história do Brasil. Uma mulher é eleita presidente do Brasil.

Assistimos a uma campanha de baixo nível. Um jogo de acusações recíprocas e poucas propostas, ideias.

Enfim, em uma sociedade historicamente dominada por homens, uma mulher, a quem é dado o lugar à parte, do sexo frágil é eleita presidente.

Não há muito o que falar, visto que não sou especialista em análises sociais sob o paradigma das relações de gênero. Em meu limite de reflexão só posso analisar a mudança pela qual estamos passando. Depois do presidente operário, uma mulher.

Espero que a eleição de Dilma Roussef seja um lampejo de esperança de uma sociedade mais equitativa, onde valha a máxima de Sêneca: Homo res sacra homini. Membra svmvs magni corporis.

segunda-feira, 18 de outubro de 2010

“Entre vós não deve ser assim”: uma pensata teológica sobre a intervenção de igrejas nas eleições 2010


Por Erasmus Morus

O Brasil vive um grande momento de sua história: a possibilidade de escolher entre projetos distintos de governo já experimentados. Infelizmente a campanha perdeu seu caráter propositivo e dialógico do primeiro turno e passou a uma troca de acusação entre a situação e a oposição. A situação ainda piora quando igrejas, em nome de Deus, fazem looby para favorecer candidato x ou y.

Como teólogo e conspirador deste blog, não posso deixar de me posicionar acerca da missão da Igreja cristã no que tange à política.

Desde os primórdios o messianismo de Jesus de Nazaré não é bem compreendido por todos aqueles que são seus seguidores. Alguns dos que estavam com ele pediram lugares à sua direita e à sua esquerda. A resposta de Jesus é emblemática: os governos buscam poder mas, entre os discípulos não deve ser assim. Quem quiser ser o primeiro que seja o servidor de todos.

A Igreja, no entanto, após o edito de Milão por Constantino, abandona as catacumbas e se atrela ao poder estatal a ponto de o dito Imperador se considerar “bispo de fora” por ocasião do Concílio de Nicéia. A Igreja vai se adaptando aos rumos históricos da Europa e vai cada vez mais se centralizando e assumindo um poder político de grande expressão. Haja vista as 27 leis ditadas pelo papa Gregório VII, onde afirma que somente os pés do papa podem ser beijados.

Certamente, como afirmam alguns historiadores da Igreja, isto era necessidade da contingência histórica. Fato é que a Igreja se vinculou às cortes e passou a exercer poder político e espriritual.

Com o advento da modernidade e do estado laico as igrejas perdem, de alguma forma, o poder político oficial. Todavia os palácios episcopais e as casas paroquiais continuam a, saudosamente, suspirar pelo poder das cortes.

O Concílio Vaticano II é, sem dúvida o grande marco da Igreja Católica no século XX, pois, ao invés de ser um concílio dogmático como os demais, ele é um concílio pastoral, onde a Igreja volta-se sobre si mesma, em humilde gesto de auto crítica repensa e reformula sua caminhada pastoral.

No Concílio a Igreja passa a se compreender como Povo de Deus que vive em comunhão e sua missão é testemunhar o Evangelho em meio às alegrias e esperanças do homem.

Depois dessa digressão histórica podemos pensar, à luz da Palavra de Deus e do Concílio Vaticano II o que estamos testemunhando: Igrejas exigindo que candidatos assinem compromissos com suas pautas morais, bispos escrevendo cartas dizendo claramente aos fiéis que não votem em determinado partido. A igreja, em seu aspecto humano é inegavelmente uma coorporação política, visto que o homem é animal político e é este homem que compõe a Igreja como seu membro.

Sendo a missão da Igreja evangelizar e sendo ela a-partidária, já que ékklesia, re-união de pessoas, ela está falhando ao obrigar candidatos a assinar suas pautas morais.

Não estamos aqui discutindo a pauta moral das Igrejas, mas a maneira com que ela a propõe. Vivemos um saudosismo das cortes quando deveríamos revisitar nossas origens, as catacumbas, e anunciar o Evangelho da vida e não o impor.

Será o que faria Jesus? Faria campanha a favor de um partido ou promoveria a unidade dos filhos de Deus, acolhendo a todos os partidos e propondo um caminho que visa fazer uma nova consciência? A César o que é de César e a Deus o que é de Deus.

quinta-feira, 14 de outubro de 2010

Oráculos


Por Erasmus Morus

Os oráculos, na antiguidade, eram procurados pelos homens por darem respostas, orientações em uma situação onde impera a dúvida.

O mais famoso para os Ocidentais talvez seja o oráculo de Delphos, donde encontramos a famosa inscrição celebrizada pelo Sócrates platônico: conhece-te a ti mesmo.

A grande resposta para as perguntas humanas eram encontradas neles mesmos.

A busca humana não finda com o tempo. Somos seres “buscantes”, peregrinos em busca da verdade.

Não abandonamos, tampouco, os oráculos. O mais famoso deles hoje é o Google. Um simples click na palavra buscar e uma imensidão de respostas prontas se nos apresentam. Coisas boas, coisas ruins indistintamente apresentadas, esperando o discernimento do sujeito. Aí reside nossa grandeza e nossa pequenez: somos capazes de de-cidir. Somos também a-críticos para discernir.

Vendo hoje um grupo de pessoas agitando bandeiras de partidos de ideologias diametralmente opostas e que, no entanto, estão coligados, pensava eu com os meus botões e com quem-me-acompanha-o-existir: quem, será, de fato, que vencerá as eleições? O melhor candidato? A melhor proposta? A melhor propaganda?

Estamos diante de uma encruzilhada. A eleição do deputado-palhaço é uma ilustração bastante interessante do nosso tempo: “pior do que tá não fica!” É momento de de-cidir por modelos diferentes de governar.

A qual oráculo consultaremos nesta eleição? Ao que nos dá respostas prontas ou ao que nos ordena: conhece-te a ti mesmo? Cada povo tem o governo que elege, ou é levado a eleger.

terça-feira, 28 de setembro de 2010

Boas Vindas a Frederico Rosa



Por Erasmus Morus
Queremos acolher mais um conspirador por outro mundo possível. Na postagem abaixo ele mesmo se apresenta.

segunda-feira, 27 de setembro de 2010

Perfeição


Esta é uma composição que não pode faltar em tempos de política no Brasil... Vale a pena pensar...
É do meu ídolo, o Trovador Solitário:

Vamos celebrar
A estupidez humana
A estupidez de todas as nações
O meu país e sua corja
De assassinos
Covardes, estupradores
E ladrões...

Vamos celebrar
A estupidez do povo
Nossa polícia e televisão
Vamos celebrar nosso governo
E nosso estado que não é nação...

Celebrar a juventude sem escolas
As crianças mortas
Celebrar nossa desunião...

Vamos celebrar Eros e Thanatos
Persephone e Hades
Vamos celebrar nossa tristeza
Vamos celebrar nossa vaidade...

Vamos comemorar como idiotas
A cada fevereiro e feriado
Todos os mortos nas estradas
Os mortos por falta
De hospitais...

Vamos celebrar nossa justiça
A ganância e a difamação
Vamos celebrar os preconceitos
O voto dos analfabetos
Comemorar a água podre
E todos os impostos
Queimadas, mentiras
E seqüestros...

Nosso castelo
De cartas marcadas
O trabalho escravo
Nosso pequeno universo
Toda a hipocrisia
E toda a afetação
Todo roubo e toda indiferença
Vamos celebrar epidemias
É a festa da torcida campeã...

Vamos celebrar a fome
Não ter a quem ouvir
Não se ter a quem amar
Vamos alimentar o que é maldade
Vamos machucar o coração...

Vamos celebrar nossa bandeira
Nosso passado
De absurdos gloriosos
Tudo que é gratuito e feio
Tudo o que é normal
Vamos cantar juntos
O hino nacional
A lágrima é verdadeira
Vamos celebrar nossa saudade
Comemorar a nossa solidão...

Vamos festejar a inveja
A intolerância
A incompreensão
Vamos festejar a violência
E esquecer a nossa gente
Que trabalhou honestamente
A vida inteira
E agora não tem mais
Direito a nada...

Vamos celebrar a aberração
De toda a nossa falta
De bom senso
Nosso descaso por educação
Vamos celebrar o horror
De tudo isto
Com festa, velório e caixão
Tá tudo morto e enterrado agora
Já que também podemos celebrar
A estupidez de quem cantou
Essa canção...

Venha!
Meu coração está com pressa
Quando a esperança está dispersa
Só a verdade me liberta
Chega de maldade e ilusão
Venha!
O amor tem sempre a porta aberta
E vem chegando a primavera
Nosso futuro recomeça
Venha!
Que o que vem é Perfeição!..

terça-feira, 21 de setembro de 2010



Por Erasmus Morus

Escrever o presente artigo comporta um duplo desafio: o primeiro é escrever neste periódico em sua reestréia e, o segundo, dirigir um breve olhar sobre o nosso país em época de disputa eleitoral.

Pois bem. Aos desafios. Em um olhar superficial sobre a realidade de nosso país são inegáveis os progressos que alcançamos. Os dados apontam que mais pessoas tiveram acesso a bens de consumo, mais acesso à internet, telefonia móvel, mais lugares com acesso por via asfáltica. O país conseguiu enfrentar a crise mundial, fortalecendo-se a economia, com projeção de crescimento econômico de mais ou menos 6,5 % para o ano de 2010.

Este desenvolvimento porém não é uniforme. A riqueza continua concentrada nas mãos de poucos e em uma área bastante restrita do país, as regiões sul e sudeste. Em bastantes regiões do Brasil encontramos ainda a perpetuação de problemas comuns do tempo do Brasil Colônia, como analfabetismo, mortalidade infantil, falta de saneamento básico, desemprego.

Certamente programas de distribuição de renda implementados pelos governos estaduais e federal são interessantes, mas não resolvem o problema, pois não garantem independência financeira aos assistidos, consequentemente não se constituindo em protagonistas do processo.

Diante desta realidade, o mínimo que devemos fazer é questionar: Que país é este? E mais: que país nós construímos?

P.S. Este texto não foi escrito propriamente para este blog, mas resolvi compartilhar aqui também. E.M.

terça-feira, 31 de agosto de 2010

Educação para os direitos humanos: Entre o conteúdo e a prática


Por Erasmus Morus
Um objetivo fundamental da educação é o desenvolvimento do ser humano em suas capacidades biológicas, psicológicas e culturais, de modo a promover uma integração entre os vários sujeitos, de modo que a vida na casa comum, a vida política, seja possível. Educação, então, está para além do ensino, que é a transmissão de conhecimentos, de conteúdos, um treinamento para pensar ou executar ações de certa maneira.
Os espaços de educação são também espaços de socialização. É nesses espaços que o ser humano passa toda a sua existência, entendendo aqui que o lócus da educação não é somente a escola, mas também a família, grupos religiosos, sociais. Nesse espaço sócio-educativo é que o humano se percebe sujeito de direitos e deveres pelos quais se dispõe a lutar ou cumprir. Nesse espaço em que se constrói é que o humano muitas vezes experimenta a violação de direitos que lhe são fundamentais, haja vista a atual preocupação dos educadores e das instituições de ensino com o chamado bullyng.
Um problema que se enfrenta é que as instituições de ensino, adotando uma lógica mercantil de produzir resultados tem tido uma visão reducionista da educação somente como ensino, se preocupa somente com a transmissão formal de conteúdos, negligenciando, assim com o aspecto fundamental da educação que é fazer desenvolver todo ser humano e o ser humano todo de modo a fazê-lo interagir e reconhecer o outro.
Isto provoca uma educação falha, onde, no caso das instituições de ensino, os estudantes dominam com maestria grandes teorias e conhecimentos, até mesmo éticos, mas são incapazes de assumi-los como valores a serem vividos para a construção de um outro mundo possível.
Percebe-se, com isso a necessidade de uma educação voltada não somente para resultados que se obtém mediante o conhecimento, mas voltada para a promoção do humano como ser situado, sujeito de direitos fundamentais e de deveres.
Tal educação não se dá somente na transmissão de conhecimentos, mas exige dos educadores e das instituições de ensino que engendrem um processo capaz de promover uma prática consciente por parte dos estudantes, de modo a auxiliá-los no encontro com quem tem seus direitos fundamentais ameaçados. Assim sendo, tendo como base os conteúdos conjugados com a prática e com a observação do fenômeno do humano ameaçado em seus direitos fundamentais, educa-se para a sensibilidade e para o comprometimento com a causa.
Uma educação mais militante, que conjugue teorias e práticas, preocupada não só com o mercado e com os resultados que este exige, mas preocupada com a promoção do ser humano é urgente quando se pensa em direitos humanos. Basta pensar que os futuros líderes, em maior ou menor escala, estão nos bancos das escolas e das universidades. O projeto do mundo de amanhã começa a ser implementado hoje. Mais que clichê é uma realidade desafiadora: educação para os direitos humanos, se se quer um mundo onde eles sejam menos desrespeitados, passa pela conjugação de teoria e prática na educação para os direitos humanos.

quarta-feira, 14 de julho de 2010

E aí vem as eleições...


Por Erasmus Morus

Finda a Copa do Mundo... Tristeza! A Seleção de jogadores brasileiros ficou pelo caminho. Era interessante ver as cidades correndo para o grande evento... tudo pára em função dos jogos...
Todos nós nos esquecemos dos problemas, das alegrias. Só o jogo ocupa nosso tempo, nossas conversas, nossas perspectivas.
A copa acabou... Parece que a vida começa a voltar ao normal depois do triunfo espanhol. Podemos, depois do grande recesso de nosso blog voltar a mirar a utopia.
Vem aí mais eleições. Conchavos político-partidários articulados, cabe agora ao povo escolher representantes entre os conchavos dos quais não participou ou escolheu. Limites da democracia!
Pois bem... É tempo de examinar propostas, analisar conchavos, acompanhar discursos e tentar escolher dentro daquilo que não escolhemos.
Fica agora a pergunta: Será se elegeremos os melhores candidatos? Cada povo da democracia representativa não tem o governo que merece, mas o governo que elege. É bom pensar.
Viva a utopia!

segunda-feira, 1 de fevereiro de 2010

O legado de Zilda: o Nobel negado

Por Erasmus Morus
É Zilda! Ter utopia não é fácil! Ela desinstala, tira do lugar para o não lugar. Faz com que, aos setenta e cinco anos esteja fora da pátria levando utopia a quem pouco ou nada tem. É aí, buscando sua utopia que o derradeiro encontro se dá.
Não a conheci de maneira direta. Mas conheço centenas de frutos seus. Se se conhece a arvore pelo fruto, esta é, sem dúvida, de linhagem nobre. Seu irmão, o bom frei Paulo, ajudou a muitos em tempos de liberdade cerceada, construiu uma igreja Povo de Deus. Você, tendo seduzido a tantos com sua utopia, salvou vidas que nem mesmo você sabe quantas. É! Não há maior amor que dar a vida pelo irmão! Talvez o que é discurso de semana santa em muitas igrejas seja a síntese de sua vida imortalizada em tantas vidas resgatadas da morte.
Querem agora dar a você o prêmio Nobel. Interessante isso, sobretudo no ano de 2009. Quem o ganhou foi alguém que sustenta duas guerras. Daí a dúvida: o messias estadunidense ganhou o Nobel da Paz ou o da guerra? Isso não importa. Vanitas vanitatis!
Interessante que seu legado é um Nobel negado. Talvez assim seja melhor. Seu trabalho continua silencioso, sem alardes, semeando uma paz para além da ausência de guerras.
Sinceramente, espero que você, Zilda, não descanse em paz. Espero que sua vida, imortalizada em sua obra, continue a ensinar a todos o quanto é bom viver de esperança.
Viva a UTOPIA! Viva a PAZ! Shalom alechen!

quarta-feira, 16 de dezembro de 2009

A Utopia não pode morrer...


A utopia não pode morrer

Por Erasmus Morus

Nota de falecimento: Faleceu a UTOPIA.

Estranho começar escrevendo com a nota de falecimento da utopia onde se deveria escrever que a utopia não pode morrer. Todavia, entre o poder e o efetivamente ser há uma grande distância. E, ao que parece, sem querer ser derrotista, pessimista ou qualquer outro ista, parece-nos que foi isso que ocorreu. A utopia não pode morrer e, no entanto, morreu.

Etimologicamente utopia significa não lugar. Essa palavra aparece em um escrito de Thomas Moore, onde ele descreve uma sociedade perfeita que existe em um não lugar.

Posteriormente ela passou a indicar meta, objetivo a se alcançar em âmbito de sociedade.

Em nome desse não-lugar pessoas foram capazes de mover mundos e fundos para que este pudesse ser algum-lugar, mesmo sabendo que a utopia é um horizonte em fuga.

Interessante aqui lembrar alguns fatos da história que nos ajudam a entender que a utopia que não pode morrer, morreu.

Parece que, somente quando ideais de liberdade estão em jogo é que nos sentimos incomodados a lutar por uma sociedade sem oprimidos e opressores, onde haja menor desigualdade entre os pares, onde haja bens para todos, vida digna, saúde... Isso parece que movia muitas vidas quando nossos países latino-americanos eram assolados por regimes militares. Quantos deram sua vida por esse ideal, não tendo sido sepultados dignamente mesmo após o fim dos regimes? Quantos abandonaram tudo acreditando que poderiam fazer alguma coisa por um outro mundo possível?

No entanto, os regimes militares acabaram, a democracia foi restaurada – será?- e a utopia morreu. Muita gente que partiu num rabo de foguete, como diz a música, voltou. São grandes empresários ou dominam a política nacional. Como não há contra quem lutar, visto que são os mandatários, deixaram a utopia guardada em algum lugar da memória, da gaveta, das bibliotecas, dos museus. Guerrilheiros de outrora se aliam a defensores do regime militar! Ironia da história que escolhemos!

Essas linhas carecem de auto-crítica também. Estar no lugar que quem percebe as ambigüidades dos outros é fácil, e como é! É preciso fazer um mea-culpa.

Vivemos hoje em uma sociedade em que não há opressão político-ideológica. É possível crer em qualquer deus, se filiar a qualquer partido político, dizer o que se pensa, vestir a roupa que se quer...

Todavia, vivemos em uma ditadura mais sutil. O ditador não tem rosto, nome, lugar. Ele transcende todas essas categorias e consegue ditar, moldar nossa maneira de viver e matar a utopia. Somos a-críticos, inertes, alienados, produtificados, mercantificados. A utopia dos outros morreu e não fizemos ou fazemos nada para ressuscitá-la.

Há lampejos de esperança! Há ainda quem lute por um outro mundo possível. Resolvemos, com esse blog partilhar as coisas que passam pela nossa cabeça, para juntos conspirarmos por um outro mundo possível.

A utopia morreu, mas não pode morrer. Esse não-lugar começa a ser algum-lugar quando lutamos por aquilo que sonhamos. Para além do eu.